À beira da cegueira: moradora de Monte Carmelo espera por cirurgia urgente enquanto acusações de favorecimento surgem na saúde pública.
Carmelitana com apenas 20% da visão em um olho aguarda procedimento desde março de 2025. Áudios e denúncias apontam possível favorecimento político no sistema de saúde.
A espera por um procedimento que pode salvar a visão tem se tornado angustiante para Maria Lúcia Silva Araújo Rodrigues, em Monte Carmelo (MG). Diagnosticada com glaucoma grave, associado a sequelas de uveíte nos dois olhos, a paciente enfrenta o risco iminente de cegueira total.
Desde março de 2025, Maria Lúcia tenta, sem sucesso, agendar um procedimento oftalmológico pelo SUS. O quadro clínico se agravou, e agora ela depende com urgência de uma cirurgia chamada trabeculectomia, indicada para controlar a pressão intraocular e tentar preservar o restante da visão do olho direito. Já perdeu completamente a visão do olho esquerdo.
“Só me resta 20% de visão no olho direito. Estou precisando de ajuda, fazendo rifas, festival de sorvete... mas não consegui nem pagar a cirurgia ainda”, desabafa.
Ela realizou um festival de sorvete no dia 23/11/2025 para comprar medicamentos e suprir outras necessidades de saúde, já que também convive com lúpus e aguarda há meses pelo início do tratamento. O pedido de socorro ganhou repercussão nas redes sociais, e nossa redação passou a acompanhar de perto o caso.
Documentos comprovam urgência.
De acordo com laudos médicos assinados pelo oftalmologista Dr. Arnaldo Machado Borges do Vale, mesmo com o uso contínuo de colírios, a pressão ocular de Maria Lúcia permanece alta. A recomendação médica é clara: cirurgia com urgência.
O procedimento foi solicitado via SUS e está protocolado na Secretaria Municipal de Saúde de Monte Carmelo desde o dia 6 de novembro de 2025. A cirurgia seria realizada no Hospital Municipal, com o médico Dr. Rodrigo Barbosa Milagres, especialista em oftalmologia. Até o momento, no entanto, não há data prevista para o procedimento.
Mas, segundo a paciente, este tipo de cirurgia não é feito aqui, somente em Uberlândia-MG ou Belo Horizonte-MG, pois o TFD foi colocado errado, segundo a denunciante.
Outro relatório, emitido pelo Instituto de Olhos do Triângulo (IOT), atesta um histórico complexo de saúde: microftalmia com alta hipermetropia, lúpus eritematoso sistêmico, uveítes de repetição, cegueira total no olho esquerdo e membrana epirretiniana com edema no olho direito — o único ainda funcional. O diagnóstico é classificado sob o CID H40.1 – Glaucoma primário de ângulo aberto.
Gravações revelam tentativas de intimidação e suspeitas de favorecimento.
O caso ganhou novos contornos após a paciente procurar a redação do Jornal Sentinela Carmelitano, no dia 23 de novembro de 2025. Em contato com a Secretaria Municipal de Saúde, o servidor Carlos Resende informou que “não poderia verificar o caso no domingo”, mas que “olharia o histórico dela no dia seguinte”.
A paciente então recebeu um áudio de visualização única, gravado pela nossa redação, em que o repórter conhecido como “Repórter do Povo” afirma:
“Fiquei tão triste aqui agora... O coitado do Carlos da saúde me mandou aqui agora o Jornal Sentinela cobrando o tratamento de suas vistas. Procurar esse cara do jornal Sentinela pra quê? Ele não vai resolver.”
Minutos depois, Carlos Resende respondeu com nova mensagem para a redação, reconhecendo e afirmando:
“O caso dela realmente é muito sério, por isso estão tendo cautela. Estes dias mesmo esteve Dr. Rodrigo.”
Não termina por aí. Em uma ligação feita por Maria Lúcia ao “Repórter do Povo”, nossa equipe registrou uma nova conversa. Durante o diálogo, o interlocutor fez acusações e declarou que:
“O fura-fila tem que ter, porque o Paulo parou de atender, o Carlos parou de atender... Não adianta chegar lá, contar o seu caso e estar ruim. Ele não pode pegar você na posição oitenta e colocar na primeira. Pode agora caçar o prefeito.”
O repórter ainda alega que o Jornal Sentinela é assessor de uma vereadora que criou o projeto de lei fura-fila, tentando intimidar a paciente e descredibilizar o trabalho da imprensa local.
“Conversei com o vereador Carpegiane Correia de Souza (PG da Patrola - PSD). Vocês não podem fazer um trem desse, não. É direto que eu tô guiando pessoas lá pro Carlos Resende, pro Paulo Rocha, secretário de Saúde, e pro prefeito Ricardo. Pessoas que estão na fila. Já perdi a conta de quantas pessoas eu mandei. Agora, com esse projeto fura-fila, não pode nem mexer mais. Antigamente podia, hoje já não pode mais.”
As falas levantam indícios de favorecimento pessoal no acesso à saúde pública, com possíveis interferências em processos do SUS. As declarações precisam ser investigadas pelas autoridades competentes.
O repórter ainda menciona que orienta diretamente pessoas para Carlos Resende, o secretário Paulo Rocha e o prefeito Ricardo, e afirma:
“Já perdi a conta de quantas pessoas eu mandei.”
Direito à saúde em risco
O caso de Maria Lúcia não é isolado. Em muitas cidades do interior, pacientes com doenças graves enfrentam filas longas, ausência de especialistas e morosidade no atendimento. A situação se agrava em casos de doenças autoimunes, como o lúpus, que exigem atenção imediata e acompanhamento multidisciplinar.
A Constituição Federal garante a todo cidadão o direito à saúde e ao acesso universal e igualitário aos serviços do SUS. No entanto, a realidade vivida por Maria Lúcia expõe a distância entre a lei e a prática.
“Meu médico falou que eu posso acordar a qualquer momento sem enxergar nada”, afirma a paciente, com a voz embargada.
A cirurgia indicada é o único caminho possível para tentar preservar o pouco que ainda resta de sua visão.
Nota do Jornal Sentinela Carmelitano
O Jornal Sentinela Carmelitano reitera que não possui qualquer vínculo com partidos, vereadores ou membros da administração pública, conforme foi falado no áudio do interlocutor "Repórter do Povo". Atuamos de forma independente, sem receber verba política e pública, e não participamos de decisões sobre fila do SUS ou marcações de exame.
O Jornal Sentinela Carmelitano reafirma seu papel como veículo comprometido com a informação de interesse público, a fiscalização dos poderes e o respeito à pluralidade de vozes. Seguiremos acompanhando este caso com responsabilidade, garantindo espaço para o contraditório e mantendo nosso compromisso com a ética e a transparência que nos guiam desde o início.
“Jornalismo não é conivência. É compromisso com a verdade e com quem nos lê.”
Encaminhamentos jurídicos
Os áudios foram encaminhados ao setor jurídico do jornal. Caso o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) ou demais autoridades deseje, os materiais estarão disponíveis mediante solicitação formal.

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