Monte Carmelo realiza 1ª caminhada pelo autismo e mobiliza famílias por inclusão e direitos
Evento reuniu comunidade, especialistas e famílias atípicas em um movimento por empatia, visibilidade e acesso a políticas públicas
“Um passo coletivo rumo à inclusão”
Monte Carmelo deu, neste sábado, um importante passo rumo à inclusão. A 1ª Caminhada de Conscientização do Autismo reuniu famílias, profissionais e apoiadores em um movimento que foi além de um simples ato público transformou-se em um chamado por empatia, visibilidade e garantia de direitos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A concentração teve início às 16h, no Espaço Cultural. De lá, os participantes seguiram pela Avenida Olegário Maciel até a Praça do Camilão. Ao longo do trajeto, o que se viu foi união, acolhimento e conscientização. O evento foi encerrado em clima de confraternização, com atividades recreativas e interação entre os presentes.
“Um clamor que precisava ganhar as ruas”
Um dos idealizadores da iniciativa, o vereador Caxias Arlen Graciano de Souza (Professor Caxias) destacou que a mobilização nasceu da escuta ativa das famílias atípicas.
“A maior motivação foi o clamor silencioso, mas persistente, das nossas famílias. Como homem público e, acima de tudo, como pai atípico, senti que não podíamos mais esperar. Precisávamos ocupar as ruas.”
Ele também destacou a participação fundamental de mães na construção do evento.
“Quero destacar o papel da Eusarah. Sua força como mãe atípica e sua parceria incansável foram essenciais para que essa missão saísse do papel.”
Segundo ele, a caminhada representa um marco importante para o município.
“Mais do que uma caminhada, foi um ato de afirmação. Viemos dizer à sociedade que existimos. Nossas famílias têm rostos, nomes e direitos.”
Apesar do avanço, ele reconhece os desafios.
“Ainda temos um vazio em políticas públicas estruturadas. Mas estamos trabalhando para transformar essa carência em ação, com novos projetos que serão lançados em breve.”
Para o organizador, a caminhada é apenas o começo.
“Não é um evento isolado. É uma jornada sem volta, um grito por respeito, oportunidades iguais e inclusão real.”
A realidade das famílias atípicas
A mãe Karina Moura da Silva compartilhou a trajetória até o diagnóstico do filho, João Batista Mendes da Silva Neto.
“Eu já desconfiava por alguns sinais, como seletividade alimentar e atraso na fala. Fomos chamadas na creche, depois passamos por avaliação e conseguimos o diagnóstico com um neuropediatra em Uberlândia.”
Ela destaca que os desafios vão além do diagnóstico.
“A seletividade alimentar é muito difícil. Ele não aceita muitos alimentos, e isso impacta diretamente no dia a dia.”
Sobre o suporte oferecido no município, ela aponta limitações.
“Ainda existem muitas falhas. Não conseguimos acesso às terapias necessárias. Meu filho chegou a ter apenas apoio pedagógico e linguístico e recebeu alta mesmo precisando de terapia ocupacional.”
Para ela, a caminhada representa um avanço, mas também um alerta.
“É um passo importante para dar voz às famílias, mas ainda faltam recursos, profissionais qualificados e estrutura.”
Conscientização ainda é um desafio
A neuropsicóloga Wanda Mendes de Oliveira ressalta que a desinformação continua sendo um dos principais obstáculos.
“Muitas pessoas acreditam que todo autista apresenta as mesmas características, mas o espectro é amplo. Cada pessoa possui necessidades e potencialidades diferentes.”
Ela reforça que a inclusão depende de mudanças práticas.
“A sociedade pode ser mais inclusiva por meio da informação, da empatia e da adaptação dos espaços sociais. Isso inclui escolas preparadas, profissionais capacitados e ambientes acessíveis.”
Sobre o diagnóstico precoce, ela destaca sua importância.
“Permite intervenções mais eficazes em um período em que o cérebro tem maior capacidade de adaptação, favorecendo o desenvolvimento da criança.”
Apesar das dificuldades, há avanços.
“Existem iniciativas importantes, como investimentos na APAE e projetos de inclusão. A caminhada foi um marco para ampliar a visibilidade da causa.”
Alta demanda e desafios no atendimento
Representantes de instituições destacam que a procura por atendimento especializado é crescente no município.
“A demanda é muito alta, principalmente pela dificuldade de acesso a serviços gratuitos e especializados.”
A limitação de profissionais é um dos principais desafios.
“Existem filas de espera, pois contamos com profissionais voluntários. Isso limita o número de atendimentos, que envolvem não só as crianças, mas também suas famílias.”
Mesmo diante das dificuldades, iniciativas como a caminhada são vistas como fundamentais.
“Essas ações dão visibilidade à causa, sensibilizam a sociedade e fortalecem a rede de apoio.”
A voz de quem participa
Entre os participantes, o sentimento predominante foi de união e conscientização.
Jéssica Roberta resume o motivo de sua presença:
“Decidi participar para apoiar a causa. A família atípica enfrenta muitos desafios e preconceitos. Não é o autista que deve se adaptar ao mundo somos nós que devemos nos adaptar.”
Para ela, o autismo vai além de um diagnóstico.
“É amor, respeito, solidariedade e aprendizado diário.”
E reforça a necessidade de evolução da sociedade.
“Ainda falta compreensão, empatia e respeito ao próximo.”
O que é TEA?
TEA é a sigla para Transtorno do Espectro Autista. O termo “espectro” indica que cada pessoa pode apresentar características, necessidades e potencialidades diferentes.
Um movimento que está apenas começando
A 1ª Caminhada pela Conscientização do Autismo em Monte Carmelo não foi apenas um evento foi o início de um movimento.
Entre avanços e desafios, a mobilização mostrou que dar visibilidade à causa é o primeiro passo para construir uma sociedade mais justa, empática e preparada para acolher as diferenças.
Mais do que um ato simbólico, cada passo dado representa um avanço na luta por respeito, inclusão e compreensão.
